10 - Corpos de silício e Turing
Políticas públicas na minha área
Tendo em mente apenas aquilo que me afeta profissionalmente, as instituições e políticas públicas que me chamam a atenção são as que dizem respeito ao uso responsável de dados e à sua segurança. Atrelando soberania nacional às políticas de tratamento e coleta de informação.
Como já mencionado em mais detalhes na última tarefa desta série de EDS, 9 - Debian, ódio ao Windows, GEC., o uso majoritário de sistemas de empresas estrangeiras conhecidas por coletar dados de forma invasiva se torna uma questão de segurança e soberania a partir do momento que os sistemas começam a lidar com dados sensíveis da população.
Um resultado do que foi mencionado naquela tarefa, quanto à coleta de dados, é que as políticas públicas brasileiras atualmente não são nem de perto eficazes o bastante para conseguir de fato salvaguardar os dados da população. Embora sejam criados programas como o “Hackers do bem” e leis como a LGPD, que são passos na direção correta, ainda faltam medidas que de fato punam empresas que não sigam a LGPD.
Corpos de Silício e Turing
Outro assunto que foi abordado foi o descarte tecnológico. Não sobrou muito a falar quanto ao estado atual das coisas (que eu considere relevante a uma discussão para a atual tarefa) que já não seja um assunto muito comentado, como é o caso das terras raras, por exemplo.
Portanto, falarei sobre a perspectiva histórica, puxando como assunto também a exposição “Corpos de Silício”, que foi executada na UFABC.
A exposição contém vários dispositivos, nem todos eletrônicos, mas que fazem parte da história da computação, e consequentemente da evolução tecnologica observada nas últimas décadas. Para falar da exposição, no entanto, faz sentido começar pelo dispositivo mais importante dela, que ocasionou em todos os outros. Partindo de celulares modernos, voltamos para videogames antigos e computadores de tubo, a partir dos quais voltamos ainda mais para computadores antigos (do tipo que nem tinham tela) e disquetes, voltando mais e mais, chegamos à máquina que gerou toda a revolução tecnológica e digital: a máquina de escrever.
Como a máquina de escrever ocasionou nos computadores, videogames e celulares? Foi pelo trabalho de diversas pessoas ao longo do mundo. Seria ingênuo achar que apenas os trabalhos de Turing, o pai da ciência da computação foram necessários, pois isso ignoraria o trabalho de outros, como Ada Lovelace, a primeira programadora, ou Von Neumann, que criou a arquitetura dos primeiros computadores - tal como o ENIAC. Mas seria injusto, também, agir como se o trabalho de Turing não fosse importante, uma vez que seu trabalho criou o modelo matemático que computadores emulam.
Turing criou sua máquina matemática que realiza contas com base em abstrações feitas em cima de uma máquina de escrever. Os conjuntos de símbolos da máquina de escrever, o alfabeto, foi substituido por 0 e 1. As regras de transição de estados foram adicionadas, a cabeça de leitura obteve capacidade de sobreescrever e apagar. Com as poucas abstrações, a máquina de escrever se tornou a máquina de turing
Caso queira saber como, exatamente, funciona o modelo matemático das máquinas de Turing, ler o meu artigo para o gec: A máquina de turing: das máquinas de escrever aos computadores.
Ou então, o artigo do próprio turing: On computable numbers, with an application to the Entscheidungsproblem
Com base no modelo de Turing, Von Neuman criou sua arquitetura, criando máquinas como o ENIAC, que serviram como alguns dos primeiros computadores. A partir deste trabalho, começou-se a revolução da computação, onde surgiram os transistores, chips e microchips, por décadas seguindo a Lei de Moore, cofundador da Inter, que dita o número de transistores em um chip dobra aproximadamente a cada dois anos, resultando em um aumento exponencial no poder de processamento e na redução de custos.
O ENIAC e as primeiras máquinas de Von Neumann eram gigantes, ocupavam salas inteiras, e mesmo assim, eram muito mais fracas do que o celular moderno (pós lançamento do primeiro iPhone) mais fraco. Isso por conta dos avanços tecnologicos na área da eletrônica e, posteriormente, microeletrônica. Estes avanços permitiram que máquinas muito menores fossem muito mais potentes do que os primeiros computadores, e permitiram a continuidade da Lei de Moore.
Com a redução dos preços prevista por Moore, foi eventualmente possível a criação de computadores para propósitos além dos acadêmicos ou militares. Foi possível a criação de computadores para uso pessoal, como o computador “de tubo” na exposição. Eventualmente, por razões similares, surgiram os videogames, como o nintendo-64 da exposição. Anos depois, surgiram também os primeiros celulares, como o famoso Nokia, conhecido por ser resistente.
O acelerado aprimoramento da capacidade de processamento das máquinas fez com que dispositivos mais antigos se tornassem obsoletos, fez com que todos os dispositivos da exposição se tornassem obsoletos, embora ainda sejam capazes de realizar suas funções. Isso foi apenas um resumo bem compactado sobre como as máquinas de escrever levaram à criação dos celulares e computadores modernos.