4 - Etnia e Gênero
etnia e gênero
“A união das duas famílias com bagagens e culturas distintas faz de mim, portanto, apenas mais um dentre milhões de pessoas que são fruto da miscigenação tipicamente brasileira.”
Esta foi a frase que utilizei para falar de mim mesmo anteriormente. E é uma sequência de raciocínio correta. Eu sou reconhecido socialmente como branco devido à minha cor de pele, embora tenha várias pessoas negras em minha família, e embora a minha família de mãe tenha vindo de um Mocambo/Quilombo.
Não escolhi ser branco, da mesma forma que não escolhi ser homem, nem ser alto, nem escolhi meu nome, nem ser sequer eu. Os conceitos que se relacionam com a minha identidade foram, em sua maioria, escolhidos por terceiros, como falei no último artigo.
Entretanto, o que fazer quando isso me é conveniente? Vivemos em uma sociedade racista, então ser reconhecido como “branco” é algo que me molda pela ausência do racismo como violência praticada de forma direta comigo quanto indivíduo. Em mesmo sentido, em uma sociedade marcadamente sexista/machista e conservadora como a que vivemos, ser um homem hétero e cisgênero é também um fator que me molda, não por algum tipo de violência que me acomete, mas sim por ocasionar em um conjunto inteiro de violências que eu não sofro, simplesmente por ser visto como um membro daquilo que é considerado o “normal”.
No fim, voltadas a mim, não há violências diretas ocasionadas por raça ou gênero. Embora isso não equivalha a dizer que a existência dessas violências em outras pessoas não seja algo que influencie minha vida. Por exemplo: eu fui criado pela minha mãe, que é afetada por misogenia. Se é algo que afeta ela, e ela me criou, indiretamente, é algo que me afeta, mas de maneira muito menos intensa, já que não sou o alvo da violência.
Ela, no entanto, também não escolheu a cor da própria pele, nem escolheu ser hétero e cis, nem ser mulher. Da mesma forma que meu pai não escolheu esses elementos que compõem a identidade dele, nem meus avós, e nem ninguém. A normatividade de escolhas feitas por terceiros acerca de uma identidade individual, e as violências ocasionadas por essas escolhas são, portanto, elementos aberrantes advindos de questões históricas que oprimem grupos do qual não faço parte.
Outro elemento que entra neste contexto é a etnia: eu sou brasileiro, como descrito na primeira frase, mas ela implica, necessariamente, que a minha etnia é fragmentada/misturada. Nasci e fui criado a vida toda em São Paulo, embora nenhum de meus pais sejam sequer nascidos no mesmo estado que eu. Os pais deles, nasceram e foram criados em locais diferentes também. E isso se repete diversas vezes.